Conto os dias que passaram desde que fiquei sem a joia da
coroa que tomava como segura até então. À deriva, que tomo já como sepultura.
Um mar… um misto de demência e sobriedade, onde nem sempre tudo o que é, o é
por assim dizer.
Eu mesmo a fiz, a minha jangada “tumulo”! Produto das
minhas mãos já ásperas de esfregar na cara salgada das lagrimas do desespero,
de querer alcançar o que nunca poderá ser alcançado. O verdadeiro eu por assim
dizer.
Noite apos noite e dia apos dia, nada parece real e nada
fica no sonho.
Memórias da ilha onde passei os momentos mais felizes da
minha vida, os quais decidi engarrafar e atirar ao destino estão agora cada vez
mais distantes. Querer voltar e não poder mais estar aqui num oceano de
amargura onde todas as assombrações me tomam como refeição
Sempre foi assim desde que decidi embarcar na maldita
jangada sem vela… sem remos… sem leme… tudo porque a ilha decidiu entrar em
colapso.
Era tudo perfeito até a chegada da tribo sangrenta que me
quis sacrificar aos seus deuses sedentos por sangue de inocente. Coisa que
decididamente não posso ser, eu não me contive na minha abstinência e tive que
recorrer aos desejos mais carnais possíveis… sozinho entretanto…
Contudo agora percebo que o sacrifício não era uma má
ideia de todo, perder a vida que não tem qualquer valor para o ser humano nos
dias que correm… estar vivo ou não estar… pergunto-me porque e que William não
pensou nisto antes, bom amigo ele recomendo vivamente que o conheça pois dele
só encontrará bonança nas peças mais famosas…
Mais tarde nasceu a minha amada, no entanto decidiu não
esperar pela minha chegada… pois dela só restaram os seus preciosos parágrafos
que conservo dentro das minhas vestes, ora para me aquecer ora para os
salvaguardar das atrocidades do tempo… que tende em apagar os manuscritos e
lembranças, as mais felizes porque as tristezas irão sempre me atormentar.
De mim só restará um dia, se assim for possível, memórias
banais. As quais partilho e partilharei através das minhas preciosas garrafas
de rum.
Durante todo o processo, desde fugir até a minha perdição
neste mar, aprendi que o odio que sentia é um sentimento que não vale a pena.
Deixei de me importar com tal coisa para alem de ser como um cancro terminal, o
odio não e mais que uma frustração emprestada da pessoa odiada… ela tem rancor
de sim e isso reflete-se no próximo.
Já para amar… tenho a dizer que todo o amor que se recebe
não e nada mais que uma droga que nos vicia ao ponto de sermos loucos e
querermos atingir outros com uma flecha no coração, contaminado a mente para
que esta não pense mais corretamente.
Eu… o que serei eu no fundo depois de separar estes
fragmentos que por assim dizer me desfizeram o ego de tal maneira que me fazer
querer afundar imediatamente o barco?
Eu não sou nada mais que uma ilusão de outrem… que um dia
reinou e que um dia morreu…
Que um dia renasceu dentro deste vaso, eu, pintado com as
cores do mundo… cores que nunca ninguém viu… não viram porque ainda são
daltónicos, atrevo-me a ir mais longe… ainda não sabem ver com os olhos com as
mãos e com o espirito.
A extensão do que sou verdadeiramente eu… não está mais
dentro de mim nem de ninguém… o que sou eu já morreu quando ainda nem tinha
nascido… eu vim de uma época bem mais antiga e que já esqueceu de como ela era…
já nem sei o meu nome verdadeiro e é por isso que assim sempre com o meu
heterónimo… são mais do que um na verdade… pois já me esqueci que neste vaso…
eu… não contenho apenas eu… trago também o que parece ser a minha doce princesa
que morreu depois de saber que eu não estaria mais ali para a abraçar.
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