infinidade do sofrimento

No mar, onde nada eventualmente tem ou terá um fim...
Que importância há em relembrar maus momentos nele?
Se não a recompensa de dor interminável.
Seria óbvio que o meu pensamento se virasse para a felicidade...

Mas onde está essa cumplicidade?
Entre mim e o meu ser?
Não encontro dor mais dolorosa do que ser feliz sem o ser.
Imagino isso como um saco cheio de ar...

Embora agora saiba que lhe possa dar um nome...
Sou apenas uma casca para o mundo.
Vazio para o mundo que outrora era o teu...
No fundo acabei por cair nesta rotina...

Entendo agora o porquê de não haver um fim no mar.
Aos pensamentos atiram-se as lembranças sórdidas
Das mágoas que me foram causadas, por ti.
E das mágoas nasce a raiva de não poder voltar atrás...

Mas de que me serve sentir mil e um dissabores
Quando estou aprisionado num mar sem fim?
Não tenho mais boas recordações para tentar colorir o coração...
Perdi-me no tempo, que também não tem fim por estas bandas.

Julgo que tenham escorrido pelos meus dedos uns bons milénios
À deriva, num oceano, que ventos favoráveis nunca me fustigaram.
O sol nasce sempre no poente... não há estrelas na noite que me guiem...
Em tanto tempo nunca vi uma única porção de terra...

Mas o horizonte revela-me algo familiar que nunca poderei alcançar.
E daí, acabo por perceber que tenho visões assustadoras do meu passado...
Ao ver a tua face no céu sinto que estou amaldiçoado,
Embora me reconforte uma vez mais...

O que podia ser uma boa recordação... é agora uma perseguição.
Não quero mais estar perdido, mas não sei como poderei sair daqui...
A mente termina-me sempre onde não quero chegar... morrer
Por e simplesmente, deixar-me ir até ao fundo do oceano...

Será errado?
Tenho medo de partir e não poder dizer-te que ainda te amo...
As ondas ficam sempre mais bravas quando a palavra amor,
Me assombra a alma e aquece o meu corpo ferido do tempo no mar.

O vento que sempre pareceu assobiar em tempestades,
Agora parece chorar... estranho é que se pareça com o teu...
Lentamente, fui sem relutância alguma deixando o coração tomar lugar...
E batalhando dentro de mim mesmo o corpo ergue-se no barco...

Atirando-me borda fora em direcção ao abismo.
A caminho do fundo vieram-me os fragmentos que tanto queria ver diante dos olhos
Progressivamente senti  a luz desvanecer em mim
E quase simultaneamente volto a mim num outro sítio
agarrado a um barco numa garrafa...
que objecto tão estranho para quem acaba de morrer

Mas, será que acabei por morrer?
Ainda deitado, movo a cabeça...
E quem vejo a chorar és tu, não de tristeza mas de alegria
Tudo dentro de mim está num turbilhão...

Ainda não estou bem em mim,
Mas uma coisa eu sei...
Não vou desperdiçar segundo algum enquanto estiver do teu lado.

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